quarta-feira, 26 de maio de 2010

Poesia e forma




As cantigas medievais, notadamente as de amigo, apresentam um apurado trabalho formal. É comum a utilização do paralelismo e do refrão ou estribilho. O paralelismo perfeito ocorre, por exemplo, nesta cantiga de Fernando Esguio, cujos versos obedecem à seguinte estrutura.

Vaiamos, irmã, vaiamos dormir > verso A
nas ribas do lago, u eu andar vi > verso B
a las aves meu amigo. > refrão

1° par

Vaiamos, irmã, vaiamos folgar > verso A'
nas ribas do lago, eu vi andar > verso B'
a las aves me amigo. > refrão

Nas ribas do lago, u eu andar vi > verso B
seu arco na mão as aves ferir > verso C
a la aves meu amigo. > refrão

2° par

Nas ribas do lago, eu u vi andar > verso B'
seu arco na mão a las aves atirar > verso C'
a las aves meu amigo > refrão

Seu arco na mão a aves ferir > verso C
a las que cantavan leixá-las guarir > verso D
a las aves meu amigo. > refrão

3° par

Seu arco na mão a las aves atirar > verso C'
a las que cantavan non nas matar > verso D'
a las aves meu amigo. > refrão

Esquematicamente, os três pares se organizam assim: ABr/A'B'R; BCr/B'C'r; CDr/C'D'r. Ao que tudo indica, essas cantigas paralelísticas eram cantadas por dois coros que se alternavam (primeiro coro: ABr; segundo coro: A'B'r, e assim por diante). Geralmente o refrão não tem vinculação sintática com os versos anteriores. A cantiga de amigo acima apresenta temática bem característica: a moça que sofre em consequência da separação (no caso, o namorado ausenta-se para participar de uma caçada) e toma a irmã como confidente; a idealização do namorado (embora seja um caçador, ele não mata as aves que cantam).


POSTADO POR: Paulo Júnior.

terça-feira, 25 de maio de 2010

As cantigas trovadorescas



Todos os textos poéticos desta primeira época medieval eram acompanhados por música e normalmente cantados em coro, daí serem chamados de cantigas. Isso ocasionou o aparecimento de uma verdadeira hierarquia de artistas, assim classificados:

*Trovador: era o poeta, quase sempre um nobre, que compunha sem preocupações financeiras;

*Jogral, segrel ou menestrel: era um homem de condição social inferior, que exercia sua profissão de castelo em castelo, entretendo a alta nobreza. Além de cantar poesias escritas pelos trovadores, alguns desses artistas chegavam a compor;

*Soldadeira ou jogralesa: moça que dançava cantava e tocava castanholas ou pandeiros.

Com o pasar do tempo e dependendo da região, essas denominações caíram em desuso.

"Os trovadores eram geralmente nobres. Compunham ou, pelo menos, escreviam as palavras para as canções que os jograis- homens do povo, mouros, judeus, e alguns nobres de condição inferior- cantavam depois. Era igualmente de nobres, na sua grande maioria, o público ouvinte. Reis e outros membros da família real partilhavam este dom da composição poética: tal foi o caso de Sancho I e, especialmente, de D. Dinis, a quem se acreditam umas cento e trinta e nove cações."
MARQUES, Oliveira. História de Portugal. Lisboa: Palas, 1978.


_Tipos de cantigas

Podemos reconhecer dois grandes grupos de cantigas: as cantigas líricas e as cantigas satíricas. As cantigas líricas se subdividem em cantigas de amor e cantigas de amigo; as cantigas satíricas, em cantigas de escárnio e cantigas de maldizer.
Nas cantigas de amor, à maneira provençal, o falante declara seu amor por uma dama da corte (tratada de "dona" - aquela que possui domínios, propriedades- ou "senhor", isto é, senhora, aquela que tem senhorios). Nas cantigas de amigo, que se originaram na própria Península Ibérica como expressão do sentimento popular, temos como característica o sentimento feminino, ou seja, a voz é feminina, apesar de a cantiga ter sido escrita por um homem.
Como se pode observar, a principal distinção entre a cantiga de amor e a de amigo está no eu - lírico, no sujeito da enunciação: se o "dono" da voz é o homem (amor) ou se a "dona" da voz é mulher (amigo).

COMPARAÇÃO ENTRE AS CANTIGAS LÍRICAS

_Cantigas de amor

> autoria: masculina
> sentimento masculino
> origem: provençal
> ambiente retratado: palaciano
> o homem presta vassalagem amorosa
>a mulher é um ser idealizado, superior

Queixa
(fragmento)

Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza
Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza
Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa


**

_Cantigas de amigo



> autoria: masculina
> sentimento: feminino
> origem: galego-portuguesa
> ambiente retratado: rural (popular)
> a mulher sofre pelo amigo (namorado, amante) ausente
> a mulher é um ser mais real e concreto


Atrás da porta

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua


**

As cantigas satíricas, ao contrário, abandonavam o sentimento amoroso e dirigiam seu foco para as relações sociais: os costumes, notadamente do clero e dos vilões (camponeses livres); a covardia; a decadência da nobreza, que perdia espaço para a burguesia ascendente; o adultério feminino.
A principal distinção entre as cantigas de escárnio e as de maldizer residia em sua forma de expressão: as cantigas de escárnio eram sátiras indiretas, que exploravam palavras e construções ambíguas, expressões irônicas (em A arte de trovar, encontramos a seguinte definição: "Som aquelas que os trobadores fazem querendo dizer mal d'alguém em elas, e dizen-lho por palavras cubertas, que ajam dous entendimentos, para que lhe lo nom entenderem ligeiramente"); as cantigs de maldizer eram sátiras diretas, com citação noiminal da pessoa ironizada e temas que abordavam o adultério e os amores interesseiros ou lícitos, como no caso dos padres (n'A Arte de trovar são definidas como "aquelas que fazem os trobadores mais descubertamente, en las entram palavras que querem dizer mal e nom averão outro entendimento senom aquel que querem dizer chaãmente").

"A poesia satírica galego-portuguesa oferece-nos um precioso testemunho sobre a Idade Média portuguesa e peninsular, na medida em que documenta os sues costumes, sem a idealização da cantiga de amor, e nos informa sobre os fatos históricos e sociais mais relevantes."

FERREIRA, Maria Ema T. Prosa e poesia medievais. Lisboa: Ulisséia, s/d.

POSTADO POR: Tainá

O Trovadorismo


O Trovadorismo se estende do século XII ao início do século XV, quando Portugal inicia sua aventura marítima. Esse período,tipicamente medieval, reflete uma sociedade feudal organizada a partir das relações de vassalagem, uma estremada religiosidade(em que prevalece o pensamento de que Deus é o centro de tudo-Teocentrismo) e as lutas da Reconquista(forças cristãs tentavam retomar o território ocupado pelos árabes).
Podemos dizer que o Trovadorismo foi a primeira manifestação literária da Língua Portuguesa. Surgiu no século XII, em plena Idade Média, período em que Portugal estava no processo de formação nacional.
O marco inicial do Trovadorismo é a “Cantiga da Ribeirinha” (conhecida também como “Cantiga da Garvaia”), escrita por Paio Soares de Taveirós no ano de 1189. Esta fase da literatura portuguesa vai até o ano de 1418, quando começa o Quinhentismo.



Canção da Ribeirinha


Segundo consta, esta cantiga teria sido inspirada em dona Maria Ribeiro, a Ribeirinha, mulher muito cobiçada e que se tornou amante de D.Sancho I, o segundo rei de Portugal e pertence e uma coleção de textos arcaicos denominada Cancioneiro da Ajuda.
A seguir, a cantiga na forma como foi escrita.



No mundo nom me sei parelha,
mentre me for como me vai,
ca ja moiro por vós e ai!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia.
Mao dia que me levantei
que vos enton nom vi fea!

E, mia senhor, des aquelha
me foi a mi mui mal di'ai!
E vós, filha de dom Paai
Moniz, e bem vos semelha
d'aver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós ouve nem ei
valia d'ua correa.


POSTADO POR: Daniela e Nathane.